terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

ILUSTRES PERSONAGENS DA NOSSA TERRA. texto de Helena Machado

Atendendo ao pedido de Maria Helena Caiado.

                     Todo município do interior tem seus malucos folclóricos. Em Cachoeiro do Itapemirim há vários assim e também muitos que já se foram, como Maria Fumaça, Taruíra, Tenerá e mais recentemente o Agulha. A emoção me toma só em lembrar desses ilustres personagens que, na verdade, foram eles que ilustraram nossa cidade com suas limitações.
                   Tenerá, o mais antigo deles. Era alto, desajeitado, uma cara enorme. Vestia-se com extravagância e anunciava alguma propaganda. Andava sempre acompanhado de cachorros. Pegava alguns trocados amestrando cães: ensinava os cães a sentar, deitar, carregar coisas e até dançar sobre as patas traseiras. Durante muito tempo Tenerá morou em Cachoeiro. Ele morava com seus cachorros debaixo da Farmácia Central. Ele dizia que os melhoramentos da cidade vieram depois da chegada dele. Tenerá foi preso uma vez e o fizeram capinar o pátio em frente a cadeia velha. Enquanto trabalhava ao sol, dizia bem alto para que o delegado e todos ouvissem: eu já tive preso em cadeia muito melhor do que esta. A criançada gostava de brincar com ele cantando "Tenerá bico de pato 3x8 24". Andarilho, dizem que ele morreu aos cem anos no Estado do Rio.

                    Neném Doido Entre os atuais há o imortal Neném Doido, capaz de fumar 15 cigarros ao mesmo tempo. Sempre em vertiginosa disparada marchando em direção ao nada. Uma verdadeira lenda.
Ainda vive entre nós. Minha neta tem medo dele mas, ele não faz nada de mal a ninguém. 

                Geraldo Babão vive pela rua
               Maria Taruira morreu dormindo de baixo da marquise na noite que o Edifício Nina desabou.
             Maria cobertor assim era chamada porque em pleno calor de 40 graus, andava enrolada num cobertor peleja;

           Maria Gasolina Não sei porque seu apelido era gasolina...

          Moringueiro sofria de mal de parkinson. Vendia pelas ruas um saco cheio de moringas de barro gritando: Moringueiro!!! Olha o Moringueiro!!!

           Agulha 
um doidim pequeno e franzino, que lavava carros e fazia aparições pela rodoviária sempre pedindo um trocado como se fosse um antigo amigo. Era andarilho na cidade de Cachoeiro e conquistava as pessoas nas ruas pelo jeito alegre. Ele morava debaixo do viaduto, próximo a minha casa. O prefeito Ferraço, na sua gestão, construiu umas casinhas e deu uma para o Agulha. Fechou com um muro o lugar que o Agulha desocupara para não dar acesso a mais ninguém. Pouco tempo passou e o Agulha vendeu a casa que ganhou e voltou a morar debaixo do viaduto. Derrubou o muro e melhorou sua moradia. Alugava um espaço pra outro sob pagamento do seu jantar. Agulha era esperto mas honesto. Certa vez achou a carteira com documentos e dinheiro e foi procurar meu filho pra entregar. Como meu filho não estava, não deixou. Voltou depois para entregar em mãos. Ele era bem tratado pela comunidade. A senhora Neuza Misse, viúva do saudoso Roberto Misse, abria sua residência para Agulha tomar banho. Cuidava dele como a um filho. Realmente ele andava limpinho. Agulha sempre comia na casa de Dr. Paulo Herkenhoff. Ia lá em determinado horário e dona Mery lhe servia um prato de comida todos os dias. Mas certa vez agulha apareceu fora do horário, bateu na porta como de costume e quando atenderam, lá estava ele junto com um outro maluco, magérrimo, barbudo e meio hippie. Dona Mery chama Dr. Paulo e diz que agulha trouxe outro freguês, mas que ela não estava preparada para servir naquela hora sequer um prato de comida, quanto mais dois. O velho Herkenhoff chegou até a porta e quando olhou para o maluco barbudo, firmou a vista, puxou pela memória e – É o Raul Seixas, Raul Seixas! A que devo a honra, porque veio aqui com o Agulha? Raul responde que foi o primeiro cidadão que ele encontrou em Cachoeiro e quando disse que precisava chegar na casa do Sérgio Sampaio na rua Moreira 65, Agulha o levou até ali com a certeza de que eles poderiam ajudar. Dito e feito: Dr. Paulo, que era praticamente vizinho dos Sampaio, informou onde era a casa deles e que Sérgio não se encontrava em Cachoeiro. Chegando lá, Dona Lourdes e os filhos, receberam o maluco beleza e ouviram dele a história que o levou até ali. Raul havia ido até uma cidade da Bahia para dar o pontapé inicial em uma partida de futebol na inauguração de um monumental estádio. Foi em seu Fiat 147. Depois do pontapé e de torrar a pouca grana que recebera pelo comparecimento, só sobrou algum para encher o tanque de gasolina e descer a BR-101. Quilômetros mais tarde, já tendo atravessado boa parte do Espírito Santo, na altura da entrada para Cachoeiro ele constatou a falta de gasolina e bolsos vazios. Resolveu pedir ajuda à família do Sérgio, de quem fora muito amigo no início da carreira além de produtor de seu primeiro LP solo "Eu quero Botar meu Bloco na Rua". Nesse disco havia uma música com o subtítulo de Rua Moreira 65, que ele sabia ser o endereço da casa do Sérgio. Pouco depois de explicar sua tragédia financeira e o pedido de pouso, perguntou se não dava para conhecer o bar do Auzílio, que ele também só conhecia por relatos emocionados e pela canção do Sérgio. Lá foram Helinho e Mara com ele para o Auzílio. Foram recebidos pelo velho Auzílio, apesar da fama do Raul, sem a menor demonstração de surpresa ou orgulho pela presença do mais espetacular e maior astro do rock brasileiro. Na mesa, piaba frita, quibe cru, cachaça e cervejas. Do lado de fora do bar foram se amontoando um bando de cachoeirenses que ficaram sabendo da presença de Raul Seixas. Há muitas lendas sobre essa passagem de Raul por Cachoeiro. O certo é que Raul ficou quase três dias por lá, retribuiu a gentileza de sua hospedagem com roupas, sandálias e outros afagos, tocou violão e cantou suas músicas no bar do Auzílio em paga às longas rodadas de birita. Conseguiu mais algum
dinheiro para a gasolina e seguiu para o Rio de Janeiro. Isso aconteceu em 1981 e, de certa forma, Raul Seixas, de lá pra cá, passou a integrar a notória legião de malucos da pequena Cachoeiro. 
                  Mas estamos falando de Agulha que morreu em 2015, aos 56 anos, na Santa Casa de Cachoeiro. Seu nome era Luiz Gonzaga Martins Siqueira. Ele estava internado com diversos problemas de saúde. Morreu mais um ícone desta cidade, talvez tenha morrido um pouco da alegria que ele na sua forma mais humilde espalhava pela cidade. A sua mente talvez não fosse normal para os padrões desta humanidade, mas para Deus mostrava simplicidade.
Abraços Fraternos,
Helena💕

3 comentários:

  1. Parabéns pelo belo texto. Boas recordações. Voltei à minha infância. Personagens que nos descontrairam e nos deram muitas alegrias. Saudades de todos eles. Parabéns pela bela recordação. Bjs. Conceição.

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  2. Moringueeeeeiro! Olha o vaso...
    Era quase um lamento, aos meus ouvidos de menino...

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  3. O meu respeito e Gratidao por telos conhecidos...
    Emocionanantes espetaculares lembranças!!!

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