ERCI O CEGUINHO. texto de Helena Machado
Ainda não tínhamos filhos quando Gildo chegou em casa trazendo um menino de cinco anos, franzino e cego. Ele nasceu com catarata congênita e Gildo o pegou para levá-lo aos médicos e tentar reverter aquela cegueira. Os pais eram muito pobres e o menino vivia dentro de uma caixa de madeira, atrofiado e doente. A mãe tinha uma vida promíscua e bastante irresponsável. O nome do garoto era Erci. Ele chegou trazendo alegria e recebeu de nós muito amor. Ele se parecia comigo. Hoje eu diria que ele faz lembrar muito o Andrézinho, meu neto. E a cada dia o pequeno Erci crescia saudável e feliz. Era mimado por nós e por toda a família. Ele era adorável. Vez ou outra o pai vinha pegá-lo para passar um fim de semana com eles. Sempre que Gildo ia buscá-lo tinha uma briga com o pai por encontrar o menino brincando próximo ao esgoto. O tempo passou e o Erci submeteu a duas cirurgias na vista. Continuava não enxergando. Eu me tornara mãe da nossa primeira filha e já amava o Erci como um filho meu. Certa vez, em um Domingo, eu amamentava minha bebê na casa de meus pais quando Gildo chegou, como de outras vezes, reclamando que encontrou o Erci brincando no esgoto. Falou que eu ficasse preparada pois o pai do garoto poderia vir tomá-lo de volta. Para eu ficar calma. E, como o previsto, aconteceu. Engoli o choro e segurei a dor. O meu leite sumiu nos obrigando a substituir o leite da minha bebê. Só quem passou pela perda pode imaginar o tamanho dessa dor. Os anos se passaram, eu já era mãe de quatro filhos, quando apareceu em nossa casa um rapazinho. Era o nosso Erci. Ele morava em São Paulo e veio nos visitar. Continuava sem enxergar, ou enxergando muito pouco. Pediu um violão e Gildo, não só deu o violão, como levou-o a escolher um lote de terra em nosso bairro. Foi um reencontro terno, de muito amor. Mais alguns anos e o pai veio nos comunicar o falecimento do jovem Erci e pegar o terreno que Gildo dera a seu filho. Eu senti muito a perda do meu garoto. Nunca o esqueci.
Abraços fraternos
Helena
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