sábado, 24 de dezembro de 2016

ANTENOR E AS VOVÓS - texto de Helena Machado


                Quando nos casamos, fomos morar em um "paiol" que Gildo reformara dois anos antes de vir do Rio para Cachoeiro. Era simples mas confortável. Quase tudo dentro dele foi feito por ele que era muito habilidoso. Ele usava a marcenaria do Licínio Moura e foi lá que ele fez nossos moveis. Gildo não gostava de cama de casal e logo tratou de fazer duas camas de solteiro bem espaçosas. Depois vieram mesa, guarda roupa do nosso bebe e fez também duas lindas cadeirinhas de balanço para crianças. Uma ele presenteou nossa sobrinha Katia, que a mantém até hoje e a outra pra nossa primeira filha. O paiol tinha um não sei o que de agradável e lá a gente sentia muita paz. Um certo dia Gildo chegou trazendo um homem barbudo, maltrapilho, de nome Antenor, que vivia debaixo da ponte. Soube que o trouxe nos ombros. Pegou uma toalha de banho branquinha do meu enxoval. Pegou também camisa, cueca e calça e levou-o ao banheiro. Eu assistia a tudo perplexa. Como traz um sujeito desse para nosso banheiro? E minha toalha novinha? Esse homem tinha o rosto deformado por doença transmitida por um mosquito. Repugnava vê-lo. Gildo fez-lhe a barba, acomodou-o embaixo da casa e passou a tratar dele. Em pouco tempo trouxe mais duas velhinhas para morar ali. Vovó Narcisa, vovó Francisca e por fim chegou mais uma, a "vovó Gorda" como, carinhosamente, a chamávamos. Esta última aliviou nossa despesa. Isso porque ela saía aos sábados para pedir esmola e vinha cheia de iguarias, principalmente carne. Era uma festa! Depois de alguns anos tivemos que deixar nosso querido "paiol" e fomos morar com minha sogra, onde moramos até hoje. As vovós foram para o asilo da cidade. O Seu Antenor, foi abrigado por Gildo por muitos anos e fazia biscates pela cidade. Com o tempo seguiu seu destino. 
                   Finamente veio o senhor Jacó, antigo varredor de rua e orador espírita, que morou muitos anos com a gente. Este era um velhinho dos mais queridos amigos de Gildo e era a sombra dele. Onde um ia a sombra acompanhava. 
Abraços fraternos,
Helena💕

Nenhum comentário:

Postar um comentário