Conversávamos minha irmã Beth Moura e eu, sobre os trilhos que cortavam a cidade, no trecho bem em frente ao cinema Broadway. Rua Capitão Deslandes, local de grande movimento. A conversa estava interessante e animada. Não escutamos o insistente apito da locomotiva mas ouvimos gritos desesperados. As pessoas com as mãos na cabeça e um grito soou mais forte. Era Ramon Ramos, que morava ali, próximo ao pontilhão de ferro. Ele deu um pulo em nossa direção e puxou-me pelo braço enquanto empurrou minha irmã. Uma para cada lado, enquanto entre nós, passava a enorme e assustadora locomotiva apitando a todo vapor, puxando seus muitos carros. Acabaram-se os carros e eu reencontrei minha irmã muito assustada. Juntou muita gente. Copo d'água surgiram de todos os lados. Beth ria muito...eu também. Não sei se ríamos de susto ou de vergonha!
Os trilhos de ferro, com suas locomotivas fizeram muitos estragos na cidade. Lembro de automóveis sendo arrastados e amontoados. O fato mais grave aconteceu numa manhã de domingo, 29 de junho de 1947, dia de São Pedro. Naquele dia, Cachoeiro amanheceu em festa. Era feriado na cidade. Desfiles escolares, ao mesmo tempo em que locomotivas se movimentavam para lá e para cá. Por volta de nove e meia da manhã, Zunga, apelido do Roberto Carlos, parou numa beirada entre a rua e a linha férrea para ver o desfile de um grupo escolar. Enquanto isso, atrás dele, uma velha locomotiva a vapor, começou as manobras. Uma das professoras que acompanhava os alunos no desfile temeu pela segurança daquela criança próxima do trem em movimento e gritou para ela sair dali. Roberto Carlos se assustou, recuou, tropeçou e caiu na linha férrea segundos antes de a locomotiva passar. A professora ainda gritou, desesperadamente, para o maquinista parar o trem, mas não houve tempo. A locomotiva avançou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vagão, tendo sua perninha direita imprensada. Diante da gritaria e do corre-corre, o maquinista freou o trem, evitando consequências ainda mais graves para o menino. Uma pequena multidão logo se aglomerou em volta do local e, enquanto uns foram buscar um macaco para levantar a locomotiva, outros entravam debaixo do vagão para suspender o tirante do freio que se apoiava sobre o peito da criança. Com muita dificuldade, ela foi retirada de debaixo da pesada máquina carregada de minério de ferro. “Eu estava ali deitado, me esvaindo em sangue”, recordaria Roberto Carlos anos depois numa entrevista. Com um paletó de linho branco foi feito um garrote na perna ferida do garoto, estancando a hemorragia. “Até hoje me lembro do sangue empapando aquele paletó. E só então percebi a extensão do meu desastre”, afirma Roberto, que desmaiou instantes após ser socorrido. Esse momento trágico de sua vida ele iria registrar anos depois no verso de sua canção O divã, quando diz: “Relembro bem a festa, o apito/ e na multidão um grito/ o sangue no linho branco…” Roberto Carlos foi levado para a Santa Casa de Misericórdia de Cachoeiro, o único hospital daquela região. “Foi uma longa viagem. Traumas, uma de minhas composições, conta bem isso”, diz Roberto, citando outra canção, lançada por ele em 1971, que em um dos versos fala do “delírio da febre que ardia/ no meu pequeno corpo que sofria/ sem nada entender…”. No meio daquele corre-corre, com várias crianças espalhadas pelas ruas, pais e mães se desesperavam. Chamavam por seus filhos. Perguntavam quem era a criança atingida. Todo mundo correu pra ver. O acidente mudou o roteiro daquele dia em Cachoeiro. Para muita gente a festa perdeu a graça. O feriado acabou. Muitas crianças voltaram para suas casas. Lembro que eu estava desfilando pelo Liceu, de uniforme, quando houve aquele alvoroço e o desfile dispersou. Eu tinha, apenas, 11 anos.
Abraços Fraternos,
Helena
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