segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O Careca. texto de Helena Machado

               Gildo contava que aos dezenove anos, jogava peteca na praia de Copacabana com um grupo de amigos, entre eles Dr. Miracy Pereira, Adelson Moreira e Lelé, quando apareceu outro rapaz no grupo. Logo o apelidaram de "Careca". Perceberam que ele tinha uma situação mais independente que a dos demais. Tinha carro, pagava despesas de bar e até arranjava algum dinheiro pra eles. O automóvel ele sempre o emprestava para a turma. E o "Careca" passou a fazer parte do grupo. Foram-se os anos até que resolveram passar o Carnaval em Cachoeiro, terra natal da rapaziada. O "Careca" gostou da ideia justificando: é chato o carnaval aqui no Rio onde todo mundo conhece a gente. Gildo achou pedantismo dele se achar conhecido numa cidade tão grande como o Rio de Janeiro. Dr. Miracy era estudante de medicina e o "Careca" se dizia veterinário. Gildo veio dirigindo o carro, enquanto os dois vinham atrás, conversando sobre medicina. O "Careca" dizia que de medicina não entendia nada mas, saberia falar de forragem, capim gordura e capim angola. Chegando a Cachoeiro, Dr Brício Mesquita, eminente médico, irmão do também medico Dr. Rubem Mesquita, soube da presença na cidade do Dr. Aloysio de Paula. Na Praça Jerônimo Monteiro, dirigiu-se ao grupo de rapazes, estendeu a mão ao "Careca" dizendo: Dr. Aloysio, eu não o conheço mas conheço a sua obra. Falou que se sentia honrado com a presença dele em Cachoeiro. A noticia se espalhou para espanto da rapaziada ainda não refeita pelo inusitado. Seguiram-se homenagens, visitas a Santa Casa, recepção pela família Vivacqua, etc. O Doutor e Professor Aloysio de Paula era renomado tisiologista, descobridor, junto ao Dr. Abreu, da abreugrafia. Autor de livros e teses sobre o assunto. Foi diretor do museu de artes, possuía cavalos no hipódromo e possuía, também, uma valiosa coleção de quadros famosos. Foi doente do pulmão, o que lhe despertou interesse para o estudo desse ramo da medicina. O link abaixo fala sobre esse grande homem. O Professor Dr. Aloysio de Paula soube, através do noticiário dos jornais da época, 1983, da tentativa de assassinato sofrido por Gildo, triste episódio, cujo autor dos tiros foi seu próprio irmão, Cel. Donato Ferreira Machado. Na ocasião ele ligou e escreveu uma linda carta para o amigo, que foi lida no hospital mas, infelizmente, não a encontrei para transcreve-la aqui. Transcrevo, entretanto, outra carta escrita seis anos após:
   
"24-Dez-1989 .....Gildo, Recebi seu cartão pouco depois de haver falado com você ao telefone. Ouvir sua voz mesmo de longe foi uma festa. Conheci você ainda menor de idade, embora já homem feito. Sua amizade é uma das melhores recordações do período mais agitado da minha vida. Você foi um amigo leal e correto e isso não se esquece. O que nós todos admiramos em você foi que chegando ao Rio, pouco mais que um garoto do Espírito Santo, não se deixou nem deslumbrar, nem corromper pela grande cidade. Isso lhe digo eu hoje, com cerca de 50 anos de atraso, de coração aberto. Se você for a Cabo Frio no Carnaval, venha me ver. Moro numa casinha velha, portuguesa com certeza. Travessa Maçônica, numero 60, atrás e colada a Camara Municipal (de frente para a Avenida Assunção -  a principal da cidade). Um abração do velho amigo Aloysio".  
Abraços fraternos,
Helena💕

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