O ano era 1970. Com cinco filhos, o caçula com um aninho e a Malharia (MALHARIA HELENA) completando dois anos, portanto, engatinhando, Gildo e eu fomos passar o carnaval em Guarapari. Isso só foi possível porque um anjo, chamado Amália, cuidou de nossos filhos. Almoçamos em um restaurante que ficava na cobertura, com vista panorâmica. Estava vazio. Gildo reclamou da comida servida e do atendimento. Saímos. Seguimos para o Hotel Coronado, onde nos hospedamos. No dia seguinte, os amigos de Gildo chegaram para jogar carteado, entre eles, os irmãos Luiz Albano e Tito Albano Custodio e Hugo Rocha, casado com Corina Caiado. Eu acompanhei minhas amigas e a noite retornamos com o carro cheio de crianças. Primeiro visitamos a Corina, que tinha sofrido uma forte crise de asma. Hugo teve que deixar a mesa de jogo para acudi-la. Na volta, paramos em uma sorveteria para comprar sorvetes. O meu sorvete foi o primeiro a ser servido e estava estragado. Gildo, que estava na rua, recostado em um carro, gritou para o amigo alertando-o - "o sorvete esta estragado". Seguimos até o Hotel onde estava nosso carro. Nossa amiga, Teté Vargas Custodio, veio em seguida contando que o dono da sorveteria mostrou um furador de gelo, enorme, dizendo que iria furar "aquele malandro de Vitória". Levamos na gozação. Como levar isso a sério? Jantamos com o casal de amigos, na Praia do Morro. Após o jantar, Gildo retornou ao hotel deixando-me o recado de que iria descansar para o baile de carnaval. Pouco depois me levaram de volta. Na rua do hotel havia um movimento estranho. Muita policia, muita gente e transito interrompido. Perguntamos ao guarda o que estava havendo e ele respondeu que tinha sido uma briguinha. Desci logo adiante e estranhei, mais ainda, o saguão do Hotel abarrotado e percebia os olhares voltados para mim. Esperei o elevador, juntamente, com Mario Casotti e seu cunhado Antonio Carlos Rodrigues. Entramos e vimos uma poça de sangue no meio. Perguntei: é sangue? - Parece que sim, responderam. O elevador parou. Um caminho de sangue do elevador até a porta do nosso quarto, que estava aberta. Corri assustada e vi meu marido ensanguentado, recostado no colo do irmão, o Cel. Donato Machado, que mantinha uma toalha comprimindo seus intestinos. Ele vestia uma camisa vermelha, uma bermuda manchada de vermelho do sangue que lhe escorria pelas pernas. Era muito sangue. Comecei a desfalecer quando meu cunhado ordenou que eu entrasse e fechasse a porta. A movimentação no quarto era grande. Médicos chegando, o Cel. Elsino Ferreira Machado, outro irmão de Gildo, providenciava a sua remoção para Vitória. Minha amiga Maria Helena Caiado arrumava nossas malas e me consolava...chorava comigo e relembrava nossa juventude. Policia e muitos curiosos. O dono da sorveteria cumpriu o que havia dito: furou meu marido, causando oito perfurações no intestino e o mais grave, seccionou a veia femural. Ele golpeou o Gildo quando este saía da lanchonete do Fred Bechepeche, com as mãos ocupadas, trazendo leite, biscoitos e cigarros. Gildo era forte, mas foi rendido por dois comparsas, pelas costas, enquanto o dono da sorveteria o golpeava pela frente. Uma covardia sem tamanho. Gildo perdeu muito sangue porque lutou como pode pela sobrevivência. Quase um mês internado, entre a vida e a morte. Eu escutava as amigas sussurrando: "A Heleninha vai ficar viúva com cinco filhos, meu Deus!!!" A tragédia atraiu a curiosidade de todos. Era Carnaval e Guarapari estava cheia. Ao hospital de Vitoria, chegavam visitas de políticos, personalidades importantes e enorme quantidade de amigos vindos de Guarapari, Marataizes e Cachoeiro. Certamente, devido a isso, as contas do hospital e dos médicos tenham atingido um valor tão exorbitante. A gente imagina que as despesas são de responsabilidade do agressor. Ledo engano. A Justiça é tão lenta que não faz Justiça. O carro que tínhamos acabado de comprar, ficou no Hospital para cobrir parte da despesa. E a Malharia dava seus primeiros passos...
Coincidência, o dono da sorveteria era o mesmo dono do restaurante, onde na véspera, Gildo havia reclamado do serviço. Gildo o perdoou e tempos depois, através de um amigo comum, Fred Bechepeche, propôs um encontro de paz com seu agressor mas, ele não aceitou. Teve medo. Esse homem era proprietário de varias lojas voltadas ao comercio de bares e restaurantes. Pessoa de baixo nível, respondia a um processo anterior, no norte do Estado, por assassinato. Morreu de câncer. Tudo isso foi muito sofrido, como está sendo sofrido, agora, narrar essa tragédia depois de quase cinquenta anos. Penso que as tragédias, mesmo as de âmbito familiar, devam ser trazidas ao conhecimento publico. O que seria da historia se nos fosse negado conhece-las em sua plenitude?
Coincidência, o dono da sorveteria era o mesmo dono do restaurante, onde na véspera, Gildo havia reclamado do serviço. Gildo o perdoou e tempos depois, através de um amigo comum, Fred Bechepeche, propôs um encontro de paz com seu agressor mas, ele não aceitou. Teve medo. Esse homem era proprietário de varias lojas voltadas ao comercio de bares e restaurantes. Pessoa de baixo nível, respondia a um processo anterior, no norte do Estado, por assassinato. Morreu de câncer. Tudo isso foi muito sofrido, como está sendo sofrido, agora, narrar essa tragédia depois de quase cinquenta anos. Penso que as tragédias, mesmo as de âmbito familiar, devam ser trazidas ao conhecimento publico. O que seria da historia se nos fosse negado conhece-las em sua plenitude?
Abraços fraternos,
Helena
Helena
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