terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O MEPES MERECE RESPEITO. texto de Cleber Bueno Guerra

Meados da década de 60: a realidade rural capixaba era de profunda depressão socioeconômica: queda na renda rural, esvaziamento do campo e êxodo para as cidades, provocado pela erradicação dos cafezais, deficiência na assistência médica, na assistência técnica rural, e, em especial, falta de perspectivas para os jovens e suas famílias. De outro lado, recém chegado ao Estado, o Jesuíta Italiano Humberto Pietrogrande, então Pároco de Anchieta, chamou para si a missão de ajudar a mudar aquela triste realidade. Começou arregimentando lideranças de produtores, começando por João Martins, aproximou-se da antiga ACARES, através de Euzébio Terra, lideranças políticas, civis, eclesiásticas, bem como articulou apoio do Governo Italiano. Em 1967, criou a Associação dos Amigos de ES/AAES, na sua cidade natal: Pádova/Itália, como principal financiadora da nova instituição: Movimento de Educação Promocional do ES/MEPES, entidade filantrópica, de inspiração cristã, que seria criada em 26/04/1968, em Anchieta/ES. A Escola Família Agrícola/EFA no modelo da Pedagogia da Alternância, criado na França, em 1935, e já operando na Itália, apresentava-se ao Padre Pietrogrande como o instrumento de transformação daquela triste realidade, enquanto uma escola de gestão compartilhada, entre alunos, famílias, comunidades e poder público. Essa escola diferenciada foi, portanto, introduzido no Brasil pelo Estado do ES, na EFA de Olivânia, Município de Anchieta. Ao alternar períodos de uma semana na escola e outra na família, ela agrega saberes diferenciados, pela teoria aprendida na escola e a prática vivenciada na propriedade da família. Por filosofia, promove o desenvolvimento integral do aluno nas dimensões: espiritual, intelectual, socioeconômica e profissional, além de não desfalcar a mão-de-obra familiar e permitir o exercício da gestão compartilhada, o desenvolvimento comunitário e sustentável. A partir da EFA de Olivânia, houve rápida expansão para outros municípios Capixabas e também para mais de 20 Estados brasileiros, motivando a criação, em 1982, da União Nacional das Escolas Família Agrícola do Brasil-UNEFAB. O sucesso desse modelo de Escola foi tão grande que, em 1989, na elaboração da nova Constituição Estadual, o Deputado Constituinte Paulo Hartung fez inserir nela o Art. 281, regulamentado pela Lei 4523, equiparando as escolas do MEPES às escolas da rede pública estadual. Isso, de fato, foi determinante para a consolidação e expansão das EFAs no ES, como também consagrou ao autor da emenda o status de “Padrinho do MEPES”. Por essas ironias do destino, este modelo da Pedagogia da Alternância, justo no seu Estado de origem, está recebendo, agora, um “duro golpe”, desferido pelo Governo do mesmo outrora “Padrinho do MEPES” e atual Governador do Estado, ao fazer cortes desproporcionais no orçamento previsto para o MEPES, faltando cerca de R$ 600 mil reais para fechar o exercício de 2016 e previsão de faltar R$ 3 milhões para o exercício de 2017. Como o MEPES não dispõe de recursos próprios para suprir essa diferença, a perspectiva atinge patamares dramáticos e nunca vistos. E o mais grave: o Governo adotou a estratégia de não abrir agenda para ouvir a Direção do Mepes, no último ano, com certeza, de vergonha pelo tratamento injusto à rede MEPES e para evitar a impressão de estar pisoteando o túmulo do benemérito Pe. Humberto Pietrogrande, falecido em 05/08/2015, aos 85 anos. Assim, ao invés de “avançar” e expandir a Pedagogia da Alternância, cuja filosofia extrapola o ensino tradicional, visto que impregnada de valores morais da espiritualidade, fraternidade, ética e educação libertária, o atual Governo, escudado no discurso da crise, optou por “retroceder”, causando fechamento de Escolas e demissão de professores, pondo em risco um dos principais “caso de sucesso” do Estado, em vias de completar meio século, em 2018. Senhor Governador: Com todo respeito, ainda há tempo de preservar o seu nobre legado e continuar “padrinho do MEPES”, interferindo pela sua continuidade.
Engº Agrº Cleber Guerra, Aposentado do Incaper e ex-representante do GOES na Junta Diretora do MEPES.

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